No último mês de julho, tive a oportunidade de estar presente em dois ótimos shows no Circo Voador. O primeiro, o show da lendária banda de Hardcore, Dead Fish, o outro foi da banda de pop punk adolescente que adquiriu com o tempo pitadas de reggae, o Forfun.
Nessas duas experiências pude fazer parte de uma prática comum dos shows de rock mas da qual meu histórico se limitava a festas alternativas com um bando de bêbados animados. A rodinha punk.
Esse tipo de violência desportiva, que ocorre em maior ou menor densidade dependendo de onde e de quem seja o show, possui um caráter polêmico. Porque, nem todos estão afim de levar uma cotovelada aleatória enquanto tenta assistir ao show de sua banda favorita.
Logicamente, certos tipos de espetáculo favorecem essa prática. No SWU de 2011, tive a oportunidade de presenciar uma roda gigantesca devidamente conclamada por Digão, líder da banda Raimundos. Na oportunidade, me satisfiz em olhar de longe atrás da grade que me separava da plateia de onde a roda surgiu.
Há porém, outros lugares onde essa prática não seja tão bem aceita embora seja comum. Um desses casos é o caso das festas alternativas. Eu compreendo completamente os olhares reprovadores para os rodeiros. As pessoas deviam estar ali para dançar, não para causar acidentes aéreos de HI-FI's e caipirinhas.
Porém, sempre os Dj's insistem em colocar um Rage Against The Machine para que a galera mais animada posso se acotovelar com a trilha sonora adequada. O que gera a preocupação de uma parcela dos seguranças e, geralmente, é seguida de um pedido ao DJ para que a bateria de músicas pesadas e rápidas parem para que o pessoal dê uma respirada.
Assim, a música é trocada por um tradicional The Smiths ou Bon Jovi. Isso, normalmente, é o suficiente para as pessoas se lembrarem que estão em uma boate e começarem a procurar a primeira bêbada para despejar suas melhores cantadas.
Em busca de uma experiência mais intensa, um show do Dead Fish é o ideal. Uma rodinha punk mais que decente é o mínimo que se espera de um show no qual o vocalista sempre acaba por brigar com alguém.
O show em que fui fazia parte de um festival em que participavam 4 bandas: Plastic Fire, Oitão, Rancore e Dead Fish. Consegui chegar apenas para o show da segunda banda. Som pesadíssimo mas plateia, embora boa, muito rala. A rodinha serviu para dar uma aquecida para os shows subsequentes, mas só. No entanto, mesmo se não tivesse rodinha, a experiência já teria valido por ter conhecido a banda.
A outra banda era a Rancore. Eu já tinha escutado o último disco deles e estava ansioso para ouvir eles ao vivo. O show foi muito bom, em parte pela plateia que estava empolgadíssima. Apesar do som não ser muito propício, a rodinha rolava soltava. Tive que me segurar em algumas músicas para não chegar no show da noite sem folêgo.
Guardar minhas energias foi sábio. Existem poucas experiências tão intensas quanto assistir um show do Dead Fish na meiuca. A violência rolava solta em 99% do tempo em que a guitarra podia ser escutada. Pessoas se empurram sem a menor discriminação e socos eram disparados como se tivessem sidos possuidos por demômios.
A roda era composta de magrelos e gordinhos com bandas de rock e alguns carinhas fortinhos sem camisa. Apesar de me assustar com a aparência de pitboy de alguns, a maioria mostrava que estava lá só para se divertir. Embora, em certo momento do show, eu tenha sido atingido em cheio na boca do estomâgo por um desses fortinhos que eu tinha certeza que dera o golpe propositalmente.
Apesar de ter sentido o golpe, tratei de engulir a raiva de tentar me vingar em plena rodinha do fdp e me concentrei em permanecer em cima das pernas. O que não foi possível em um momento, mas, felizmente, fui rapidamente levantado pelo mesmo braço que tinha me empurrado.
Aí que reside a beleza da rodinha. O importante não é desferir golpes desleais em seu companheiro, o que importa é descarregar toda energia em uma violência cega inofensiva que faz a adrenalina correr e faz você se sentir mais vivo.
A minha queda e a de outros bêbados que estavam por lá demonstrava justamente isso. Assim que um corpo caía, meia dúzia protegia-o dos riscos de uma rodinha e outra meia dúzia ajudava o cara a se levantar o mais rápido possível. Ninguém quer que ninguém se machuque, exceto o fdp que me deu aquele soco.
Apesar das dificuldades, consegui me manter rodando quase todo o show e não sofri ferimentos graves. A dor que durou por dias em todo meu corpo e principalmente nos braços foi inevítavel, mas valeu muito a pena.
O show do Forfun tinha uma vibe totalmente diferente. Eles estavam lançando o seu primeiro dvd que continha, além das ótimas faixas de poppunk adolescente, as novas faixas do disco Alegria Compartilhada que está recheado de positividade.
A maratona para conseguir assistir a esse show foi extenuante. Além de ter que aguentar a cantoria de dezenas de chilenos por todo engarrafamento causado pela vinda do papa, fui obrigado a assistir um show religioso enquanto esperava na fila nunca antes vista para entrar no Circo.
A fila só começou a andar em velocidade decente quando a banda tinha começado a cantar a primeira música. Já era tarde mas não tinha problema, o setlist era grande e nada podia estragar o show.
Ao ouvir os primeiros acordes de perto, a primeira reação que tive foi me intrometer nos corpos amontoados ao redor do palco para curtir o show. Me desprendi do grupo o qual estava acompanhado e me lancei no bando daqueles malucos pulando.
Ao contrário do show do Dead Fish no qual eram minoria, os fortinhos sem camisa se encontravam em grande número na plateia. A primeira má impressão também foi superada e eles pareciam inofensivos.
A roda tinha menos socos e mais pulos, o público pulava em grandes círculos que as vezes se abriam para que pudessem ser lançadas pessoas no ar. O show foi muito menos intenso devido a completa impossibilidade de se fazer uma rodinha ao som de uma guitarra reggaeada. Mas as músicas antigas garantiram que o suor escorresse da minha testa em umas das rodas mais divertidas.
O show do Forfun é dotado de uma simplicidade incrível. Além das mensagens incríveis que eles passam nas músicas, em poucos shows é possível compartilhar uma rodinha com Dedeco da banda Dibob, outra grande expoente do rock surfista dos anos 2000.
Apesar do clima de despreendimento reinar no show, nem tudo era alegria compartilhada. Parecia que alguns dos fortinhos não queriam apenas brincar e, apesar de não ter visto nada grave, parecia que qualquer um ia partir para briga com alguém. Mas felizmente sempre haviam pessoas dispostas a apartar o desentedimento.
O show deles é muito bom e aconselho a todos irem, mas parece que uma parcela da plateia não conseguia entender o que a letra dizia. Porque tenho certeza, se todos ouvissem Forfun, esse mundo seria muito melhor.
Essas duas experiências me agraciaram com uma compreensão mais completa de um show de rock nacional. Me mostraram que as pessoas deveriam sair das boates e migrarem para os shows, porque lá é onde a magia acontece. Ouso dizer, que o show é a realização completa da música, onde o artista encontra o público não só através de sons, mas também através de energia. Energia que nunca se comparará ao som opaco de uma gravação.
Em todo esse processo, a rodinha punk é presença certa em shows de rock, também ouso dizer que ela é determinante na qualidade de um show. Logicamente, ela deve se adequar ao estilo de som que está tocando. Mas os pulos desajeitados e os socos cegos serão sempre preferíveis à contemplação passiva do espetáculo. E isso difere um show de rock de um show qualquer.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
terça-feira, 2 de julho de 2013
Servir e proteger?
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| "A PM só usa a força contra este tipo de 'manifestante' " |
No dia 30 de junho, após os protestos no Maracanã, o twitter PMERJ, que pertence a nossa querida Polícia Militar, postou a foto acima com os seguintes dizeres: "A PM só usa a força contra este tipo de 'manifestante' ". Esse é um sintoma claro de que, além de agir com violência exacerbada, a polícia demonstra um profundo desconhecimento do que viria a ser a sua real função.
O lema da Polícia Militar é "servir e proteger", e nada mais justo que esperarmos que a polícia sirva e proteja a população. Mas não é isso que vemos, seja em caso de manifestações ou em outros casos. A polícia demonstra que ela existe para servir os poderosos e proteger a propriedade privada.
A ação dessa organização nos protestos nos permite pensar assim. Ao invés dela assegurar à população o direito de manifestação e garantir a segurança das pessoas, a polícia agride e aterroriza os manifestantes em uma suposta premissa de dispersar, que por si só se mostra desacertada pelo fato da população possuir o direito de ocupar as ruas.
Ao agir sob o comando do governo e, por conseqüência, da FIFA, fechando as ruas ao entorno do Maracanã, a polícia demonstra claramente a quem ela mostra serviço. Os manifestantes não fazem mais que o esperado ao tentar furar essa barreira que é a representação da exclusão da sociedade civil da participação das decisões sobre a cidade.
Mas, mesmo assim, muitos criticaram a ação dos grupos violentos. Não é nenhum absurdo dizer que houveram excessos por parte de alguns manifestantes nos protestos, porém a maioria age por uma causa justa. Muitos dos encapuzados e vestidos de preto (Black Bloc) exercem o papel de retardar a ação da polícia permitindo que os outros manifestantes fujam das bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.
Ou seja, ao usar a violência em grupos como o da foto, a polícia não está fazendo nada além de atacar quem está fazendo o trabalho que ela não faz, proteger a população. É nosso dever agradecer a polícia quando ela faz um bom trabalho, mas, definitivamente, ela não o está fazendo nessas últimas semanas.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Cheiro de Chuva
Já são 6 horas e a chuva continua a cair. Dizem que o cheiro de chuva não é nada senão o cheiro de terra molhada. Mas aonde estou, não pisamos mais na terra. Aqui, tudo é feito de concreto, asfalto e metal. E embora tudo seja feito de concreto, asfalto e metal, a chuva continua com cheiro de chuva. Mesmo que a altura desses prédios apinhados de gente escondida em seus apartamentos, me impeça de molhar o meu corpo.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Triturador de papel
Preciso de um triturador de papel,
sem dó ou piedade.
Que rasgue minhas provas,
recados,
cartas
ou atestados.
Que rasgue meu passado,
inventado e transcrito
numa folha de papel.
sem dó ou piedade.
Que rasgue minhas provas,
recados,
cartas
ou atestados.
Que rasgue meu passado,
inventado e transcrito
numa folha de papel.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Aproximados
Muitas vezes, ao ouvir uma música ou ler um texto, nós acabamos assimilando aquela produção com certos momentos de nossa vida. Ela pode nos emocionar a ponto de fazer-nos chorar, rir e sentir arrepios em nossa pele. Esse não é um fenômeno raro, e todos que já consumiram arte algum dia de suas vidas já sentiram esse tipo de sentimento. Os poemas, as músicas, os romances e outras formas de artes são feitas tomando por base os sentimentos humanos como amor, alegria, tristeza ou raiva. Embora nós, humanos, carreguemos milhões de características capazes de nos distinguir em nossos DNA's, temos certezas que todos carregamos esses mesmos sentimentos.
Os sentimentos que nós atribuimos, por exemplo, às músicas que ouvimos, geralmente são assimilados de acordo com o ritmo, a melodia e as palavras cantadas daquela canção. Não raramente, esses sentimentos não possuem uma ligação direta com aquilo que o músico quis passar ao escrever a canção. A principal causa desse fenômeno é o fato da música popular ser algo muito superficial, ou, ao menos ao ponto de admitir várias interpretações sobre o mesmo objeto. Não que isso seja algo que deprecie a arte, mas certamente a faz admitir uma gama variada de recepções e interpretações. Essa superficialidade é muito encontrada na música, onde as exigências de métrica e ritmo fazem as letras produto de um processo muito intelectual. Por mais que a harmonia e melodia passem muito sentimentalismo, na maioria das músicas as letras evidenciam o esforço para encaixar todas as sílabas em uma frase musical.
Algumas, porém, fogem a esse padrão, e nelas conseguimos atravessar as notas e ver o sentimento que o interprete nos passa. Esses são exemplos raros como o, já resenhado, Plastic Ono Band do John Lennon. Nele, toda a sua mágoa com os Beatles e Deus e seu amor para Yoko são expostas em um disco extremamente sincero. Como não citar Mother? A poesia da música "Mother" é quase uma autobiografia da sua relação conturbada com os pais. Esse disco é um exemplo perfeito de como a arte pode não apenas nos sensibilizar quanto nos fazer sensíveis para um sentimento alheio. Ouvir esse disco é quase como ouvir uma sessão de terapia de John Lennon.
Outro exemplo que nos desperta sentimento de empatia é a música No Distance Left To Run do Blur. Nela, Damon Albarn canta a separação de sua namorada e a aceitação desse término. A música exala sinceridade, o timbre da voz da interpretação de Albarn não nos deixa dúvida, o que ele está contando é a sua história e como isso afetou ele. Em uma experiência quase sádica, ele nos leva a sofrer junto com ele durante os mais de 3 minutos da música. Nesse caso, a arte, muito mais que apenas representa um sentimento, mas nos mostra como podemos entender os outros e a nós mesmos a partir dela.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
The Vaccines Come Of Age
Em 2011, os The Vaccines lançaram seu disco de estreia e, um ano depois, com um gosto recente de banda estreante, eles lançam seu segundo disco, The Vaccines come of age.
O título, "The Vaccines Amadurecem" em português, poderia ser um sinal de afastamento daquela sonoridade simples e divertida do primeiro disco. Mas, felizmente, essa sonoridade característica ainda se faz presente ao longo das músicas. As canções ainda possuem a mesma aurea adolescente que permeou todo o disco de estreia.
Embora a banda permaneça ligada a suas raízes, houve evidentemente um amadurecimento, os riffs já se arriscam em mais acordes e ritmos diferentes. O som se assemelha as bandas dos anos 60, podendo os comparar aos The Zombies e Velvet Underground, ou melhor, uma mistura dessas duas bandas.
Se no disco anterior parecia faltar alguma coisa, nesse disco, a banda parece mais perto de preencher esse vácuo. Embora The Vaccines não acrescentem nada de novo, não se pode dizer que eles não façam música da melhor qualidade.
O título, "The Vaccines Amadurecem" em português, poderia ser um sinal de afastamento daquela sonoridade simples e divertida do primeiro disco. Mas, felizmente, essa sonoridade característica ainda se faz presente ao longo das músicas. As canções ainda possuem a mesma aurea adolescente que permeou todo o disco de estreia.
Embora a banda permaneça ligada a suas raízes, houve evidentemente um amadurecimento, os riffs já se arriscam em mais acordes e ritmos diferentes. O som se assemelha as bandas dos anos 60, podendo os comparar aos The Zombies e Velvet Underground, ou melhor, uma mistura dessas duas bandas.
Se no disco anterior parecia faltar alguma coisa, nesse disco, a banda parece mais perto de preencher esse vácuo. Embora The Vaccines não acrescentem nada de novo, não se pode dizer que eles não façam música da melhor qualidade.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Playlist de Agosto
A playlist de agosto já está no ar. Nela homenageamos Elis Regina, que está com uma exposição no CCBB, com a música Upa, Neguinho. Também homenageamos a peça Arena Conta Zumbi que está em cartaz no CCBB que conta com essa música no espetáculo.
Outra homenagem que fizemos foi a Nelson Rodrigues e seus 100 anos. A música Pecado Original de Caetano Veloso serviu como trilha sonora para o filme A Dama do Lotação, baseado em história de Nelson e que contava com Sônia Braga em seu auge como protagonista.
Também nessa playlist se encontram as bandas Blur, Grandaddy, Okkervil River e Simon & Garfunkel. Aproveitem!
Outra homenagem que fizemos foi a Nelson Rodrigues e seus 100 anos. A música Pecado Original de Caetano Veloso serviu como trilha sonora para o filme A Dama do Lotação, baseado em história de Nelson e que contava com Sônia Braga em seu auge como protagonista.
Também nessa playlist se encontram as bandas Blur, Grandaddy, Okkervil River e Simon & Garfunkel. Aproveitem!
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